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Uma das primeiras investigadoras da cultura avieira em Portugal fala da importância da linguagem e do traje dos avieiros. Para Maria Micaela Soares, este «é um património que tem de ser preservado e dado a conhecer aos portugueses». «Olhe andávamos com òs ciganos, andávamos p’lo o Tejo como calhava. Umas vezes ‘tavamos adunde hóvesse assim mais algum pêxe é qu’ia. Nã é cum’ agora. Agora ‘tão num sitio certo e atão nesse tempo não». Este é apenas um excerto do testemunho de uma avieira concedido a Maria Micaela Soares, pioneira na investigação da cultura avieira em Portugal À conversa com o Café Portugal esta investigadora, homenageada no I Congresso da Cultura Avieira que decorreu no início deste mês em Santarém, fala da investigação que tem levado a cabo nos últimos 40 anos sobre a cultura avieira em múltiplos aspectos que lhes estão associados. «Meti o nariz em tudo, e a foice em várias searas, algumas das coisas eu não sabia muito bem manejar, como era o caso da História. Mas os acasos da vida e desta cultura trouxeram-me as coisas e eu não as perdi», começa por dizer Maria Micaela Soares, com os olhos já cheios de água. «A linguagem, o traje e a cultura dos avieiros têm de ser reconhecidos no país porque eles foram demasiadamente importantes para serem esquecidos e marginalizados», diz, convicta. Os avieiros são o resultado das migrações internas que surgiram nos finais do séc. XIX em Portugal, e podem dividir-se em dois grupos, como explica Maria Micaela: «os varinos, vindos da região de Ovar, Estarreja e Murtosa e os avieiros originários da Vieira de Leiria». São estes últimos o alvo preferencial desta investigadora que para além da cultura, explorou também a linguagem e o vestuários dos avieiros. Recorda, por isso, a pequena aldeia do Escaroupim, na margem esquerda do rio Tejo, próximo de Salvaterra de Magos (distrito de Santarém). «Eram os nómadas do rio, como lhes chamou Alves Redol», afirma Maria Micaela, para recordar que quando «estas gentes partiram da praia da Vieira, privados da sua actividade principal, vieram instalar-se nas margens do Tejo, tentando a safra do sável, que lhes dava uma ilusão de uma vida melhor». «Não está definida uma data para esta migração, a única certeza que temos é que em dada altura, os pescadores da Vieira de Leiria, começaram a emigrar para o Tejo, e que durante anos, muitas famílias viveram uma vida repartida entre o rio e o mar. Partiam para o Tejo de comboio, mas os primeiros vieram nos seus próprios barcos», refere. E acrescenta: «ficavam nos meses de Inverno a percorrer o Tejo e a suportar uma vida que era dura e difícil, vinham em Novembro, trazidos pela penúria. Anónimos e tímidos se achegavam às margens do Tejo. Na época de vaivém entre a praia e a lezíria, moravam nas pequenas embarcações de proa alta, quer durante a faina, quer acostado. O barco era o berço, a câmara nupcial, a oficina e a tumba». E recorda que a sua vinda para as terras de Borda-D'água, «não foi fácil porque quando os avieiros chegaram à Lezíria, encontraram já o rio sulcado de barcos, alguns maiores que os seus, e que eram conduzidas igualmente por pescadores que povoavam o Tejo, chamavam os da terra varinos». Com o passar dos tempos, lembra, o processo migratório cessa e acabam por se fixar nas margens no Rio Tejo. «O nomadismo acaba e sedentarizam-se. Com a fixação definitiva, surge a necessidade de encontrar um domicílio mais estável, resistente e confortável. Pouco a pouco conquistam as margens do rio Tejo e começam a erguer pequenas barracas totalmente construídas em caniço, dado que este crescia de forma espontânea pelos valados», frisa, sublinhando que dessa instalação nas margens do rio nasceu uma cultura, onde os hábitos, a linguagem, o dia-a-dia e o traje se tornaram «muito peculiares e com identidade própria». O traje da mulher avieira Uma das características dos avieiros era o seu traje, como nos diz Maria Micaela Soares. Esta investigadora, firme na voz, revela com esta frase a segurança de quem estudou e comparou as várias formas de vestir dos avieiros. «A mulher teve um papel muito importante na família avieira, para além de mãe e esposa, era também a “camarada” do pescador. Era ela quem remava e controlava o barco, enquanto o homem lançava as redes, ajudava também no conserto nas redes», conta, recordando que após a pescaria, «a mulher avieira fazia grandes caminhadas, de freguesia em freguesia, com a canastra à cabeça para vender o pescado, descalça sobre a geada ou debaixo do sol escaldante». Apesar da fixação na lezíria ribatejana, a mulher avieira conservou genuinamente o seu traje de origem. «Elas conservam puras muitas das suas tradições, com especial relevo para o vestir. Usam saia e blusa - a que a mais velha chama “casaco”, sendo aquela muito rodada ou em pregas miúdas. De tecido diferente, conforme a estação do ano, a saia tende sempre para o xadrez castanho-amarelado, embora se vejam também de cores muito garridas», explica. E adianta: «o “casaco” tem sempre manga comprida, é bastante colorido e muito enfeitado, com rendas ou bordados, mesmo nas menos jovens. Também não dispensa o avental, bastante rodado, estimando muito os de riscas largas, de quadradinhos miúdos ou de cor lisa, bordados. Usa-o no trabalho do rio, doméstico, agrícola ou nas festas». Na cabeça, «a avieira mais idosa não prescinde do lenço, posto com pontas ao alto, à rodada-cabeça, caído pelos ombros, atado atrás. Só dentro da casa e nos grandes calores estivais o retira e, mesmo assim, se alguém chega à porta, repõe-no imediatamente, que não parecia bem sem ele. Faz parte do decoro da sua apresentação. Quando de luto, nem em casa o afasta». Maria Micaela Soares está neste momento a desenvolver estudos sobre a linguagem dos avieiros, nomeadamente ao nível da fala popular. «Este é um dos maiores patrimónios de qualquer povo e não pode ser esquecido na cultura avieira», considera. Por fim, salienta a importância do reconhecimento da cultura avieira, como «parte integrante do património nacional», que «não deve ser esquecido e tem de ser dado a conhecer aos portugueses». Recorde-se que o projecto que pretende elevar a cultura avieira a património nacional nasceu há quatro anos numa iniciativa do Politécnico de Santarém e que envolve múltiplos parceiros. Este projecto integra ainda na candidatura a recuperação de várias aldeias avieiras que prevê a criação de mais de 450 postos de trabalho com o objectivo de criar um «novo destino turístico para o país». Já aprovado pelo PROVERE (Programas de Valorização Económica de Recursos Endógenos), envolve 41 instituições e 59 projectos de investimento e prevê ligar pelo Tejo desde a Marina do Parque das Nações até Constância.

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